03/10/2026
POR LUKAMBA GATO
A POBREZA TAMBÉM SE MEDE EM PEQUENAS PORÇÕES
A pobreza em Angola chegou ao ponto em que os próprios comerciantes tiveram de adaptar a forma de vender: já não vendem apenas produtos; vendem pequenas porções de produtos, de acordo com o dinheiro que o cliente consegue juntar.
Um pouco de arroz. Um pouco de óleo. Uma pequena porção de açúcar. Uma lambula. Alguns gramas de ossos. Etc
A unidade de medida deixou de ser o quilograma, o litro ou a embalagem. Passou a ser a nota que o cidadão tem no bolso.
Isto não é apenas uma estratégia comercial. É um indicador social.
Quando uma família não consegue comprar a quantidade de alimentos de que necessita e é obrigada a reduzir sucessivamente a dimensão da compra, alguma coisa está profundamente errada na economia.
Os números oficiais podem mostrar uma desaceleração da inflação mas a realidade do mercado é sentida diariamente por quem compra comida. Em Agosto, os preços de alimentação e bebidas não alcoólicas ainda registavam uma variação homóloga de 9,94%, segundo o INE.
Governar não pode significar apenas administrar indicadores macroeconómicos. Governar é fazer com que a melhoria dos indicadores chegue à mesa das famílias.
É preciso perguntar: de que serve uma economia que cresce, se o cidadão continua a diminuir a quantidade de comida que consegue comprar?
De que serve a riqueza de um país se o trabalhador, o camponês, o funcionário público e o pequeno comerciante continuam a viver contando moedas para decidir o que levar para casa?
A pobreza não precisa de estatísticas para se apresentar.
Ela está aí, nas ruas, no mercado, quando o vendedor já sabe que o cliente não consegue comprar um quilo e passa a vender-lhe 100 gramas.
Afinal, a verdadeira medida da boa governação não está apenas nos números da economia. Está na quantidade e na qualidade daquilo que o cidadão consegue colocar diariamente na mesa da sua família.
É urgente alterar este quadro. Tudo depende da vontade e da coragem dos cidadãos.