18/09/2026
ENTRE OS MILHÕES E OS TOSTÕES
Uma reflexão de Guilherme Farinha
Há um futebol que se mede em milhões.
Milhões nas transferências, milhões em salários, milhões em direitos televisivos, milhões em infraestruturas e milhões nas contas de grandes clubes e grandes competições.
E depois há outro futebol.
O futebol dos tostões.
Aquele onde se conta o material antes de cada treino. Onde uma bola estragada pode fazer diferença. Onde o treinador acumula funções, onde o preparador físico improvisa soluções e onde, muitas vezes, a paixão tem de compensar aquilo que falta em recursos.
Conheci os dois.
E talvez por isso tenha aprendido a não confundir dinheiro com qualidade, nem falta de dinheiro com falta de competência.
Ao longo de décadas no futebol, em Portugal e em diferentes realidades internacionais, encontrei jogadores com enorme talento a treinar em condições que dificilmente seriam aceites no futebol de milhões. Encontrei treinadores extraordinários sem grandes estruturas à sua volta. E encontrei também estruturas milionárias onde nem sempre o investimento se traduzia em melhores processos, melhor formação ou melhores resultados.
O dinheiro é importante.
Seria absurdo negar isso.
Permite contratar, construir, viajar, recuperar, investigar, formar e proporcionar condições que podem fazer uma enorme diferença.
Mas o dinheiro é uma ferramenta.
Não é o futebol.
O futebol continua a ser conhecimento, trabalho, disciplina, liderança, coragem, capacidade de ensinar e, sobretudo, pessoas.
E Portugal?
Portugal tem uma realidade particularmente interessante.
É um país pequeno, com recursos financeiros muito inferiores aos dos grandes mercados do futebol europeu, mas com uma capacidade reconhecida de formar jogadores, desenvolver treinadores e exportar conhecimento.
Temos academias de referência e clubes com estruturas de grande qualidade.
Mas também temos uma enorme quantidade de futebol que vive muito longe dessas condições.
Clubes onde dirigentes fazem contas para fechar o mês. Treinadores que trabalham por paixão. Jovens que conciliam estudos, trabalho e futebol. Campos que poderiam estar melhores. Equipamentos que são utilizados até ao limite.
E é precisamente aí que muitas vezes encontramos pessoas que mereciam mais reconhecimento.
Porque existe uma realidade que nem sempre aparece nas televisões:
o futebol começa muito antes dos milhões.
Começa num campo qualquer.
Numa criança que aparece com umas chuteiras gastas.
Num treinador que chega mais cedo para preparar o treino.
Num preparador físico que procura soluções porque não tem acesso a todos os meios que gostaria.
Num dirigente que sacrifica tempo pessoal para manter um clube vivo.
É aí que começa o futebol.
O perigo de transformar tudo em dinheiro
Hoje, demasiadas vezes, avaliamos jogadores pelo valor da transferência, treinadores pelo salário, clubes pelo orçamento e projetos pela quantidade de dinheiro disponível.
É uma forma perigosa de olhar para o futebol.
Um jogador de 20 milhões não deixa automaticamente de precisar de ser ensinado.
Um jogador de 200 mil euros não deixa de poder ter talento.
E um jovem que joga num clube sem grandes condições não deve ser considerado menos promissor simplesmente porque ainda não foi descoberto.
Há talento que nasce em academias de milhões e talento que nasce onde quase não existem tostões.
A diferença está, muitas vezes, em quem consegue reconhecer esse talento.
O futebol mundial
Em África, na América Latina, na Ásia ou na Europa, encontrei diferentes culturas, diferentes métodos e diferentes condições.
Mas encontrei sempre a mesma coisa:
a vontade de jogar e de aprender.
É isso que torna o futebol universal.
Podemos mudar o idioma, o clima, o estádio, o orçamento e a dimensão do clube.
Quando a bola começa a rolar, há princípios que permanecem.
Organização.
Competência.
Trabalho.
Disciplina.
Talento.
E vontade.
É por isso que acredito que o futebol dos tostões não deve ser visto como um futebol menor.
Pode ser um futebol com menos condições.
Mas não necessariamente com menos conhecimento, menos paixão ou menos dignidade.
O que devemos exigir ao futebol dos milhões?
Talvez não seja justo exigir ao futebol dos tostões aquilo que só o dinheiro pode proporcionar.
Mas ao futebol dos milhões podemos exigir mais.
Mais responsabilidade.
Mais investimento na formação.
Mais respeito pelos treinadores.
Mais atenção aos processos.
Mais oportunidades para quem trabalha longe dos grandes palcos.
Porque quem tem recursos tem também a possibilidade de fazer mais pelo futebol.
E não apenas de comprar mais futebol.
No fim, ficam as pessoas
Depois de tantos anos, há uma coisa que para mim permanece acima de qualquer contrato, qualquer transferência ou qualquer orçamento:
as pessoas que fazem o futebol acontecer.
Os jogadores que acreditaram.
Os treinadores que ensinaram.
Os preparadores físicos que trabalharam.
Os dirigentes que lutaram.
Os clubes que resistiram.
E todos aqueles que, mesmo com poucos recursos, nunca deixaram de tentar fazer melhor.
Talvez seja essa a verdadeira diferença entre o futebol dos milhões e o futebol dos tostões.
Não é a qualidade do sonho.
É apenas a quantidade de recursos que cada um tem para tentar concretizá-lo.
E enquanto houver uma criança a correr atrás de uma bola num campo sem grandes condições, haverá futebol.
Porque os milhões podem comprar jogadores.
Podem construir estádios.
Podem criar grandes espetáculos.
Mas há uma coisa que nenhum orçamento consegue comprar:
a paixão de quem ama verdadeiramente o jogo.