16/10/2024
Sherpa
Foi talvez a coisa mais improvável e mais intensa que me aconteceu numa montanha.
Logo nos primeiros dias de ascensão começou a despertar a minha curiosidade. Muito afável e Simpatica.
Sabia todos os caminhos, perigos, locais de caça, onde beber, em quem confiar, etc.
Respeitava todos os locais por onde passava, não entrava em qualquer espaço sem autorização (claro que era eu quem a dava).
Em todos os locais foram facilitadas as “mordomias” que dei a Sherpa, com a excessao do Refúgio em Khare.
Estávamos nos em Chutanga e deparamo nos com uma imagem diferenciada. Daí até aos 4600 mts de altimetria foram horas de sofrimento mas acompanhados por um “sorriso canino”.
Depois de passar os 4600 foi sempre a descer e diversão total. Foi a nossa líder por uma “escadaria” radical até aos 3400 mts.
Foi a primeira noite de contacto com a Sherpa e logo intensa. Tive de arranjar onde ela dormir, que comer, etc … a troca foi mais justa para mim !! Ganhei uma amiga para a vida. Durmiu a primeira noite na sala comum do refúgio. O dono foi super simpático e aceitou o pedido.
Espanto meu no dia seguinte não sabia da Sherpa. Tinha seguido a sua viagem.
Pensava eu como seria possível uma cadela tão dedicada ter desaparecido!!! ???
Pensei e bem, que uma cadela tão feliz na montanha e esperta o suficiente já conheceu alguém que lhe desse o carinho que merecia…estava certo e ela encontrou me de novo.
Seguimos para refúgios em altura e alguns deles não são propriamente petfriendly. Tive de a meter às escondidas no meu quarto, pedir ajuda a outros aventureiros, etc. Ela dormiu sempre nas condições que os humanos estavam e comeu sempre muito bem. Em troca imaginam o que tive….
Seguiu me até ao campo em altura que f**a na ordem dos 5500 mts de altitude. Para mim transparecia ser alguém que já lá estivera e sempre fora feliz. Dormiu na minha tenda (que deixei semi aberta), saiu durante a noite e voltou a entrar. De ambas as vezes evitou o calor das nossas vestes. Só queria a companhia.
Era dia de cume e tinha de acordar às 2 hrs da madrugada (21 hrs portuguesas). Fomos ascender ao cume e ela continuou na “minha casa” a dormir. Após 6 hrs de sofrimento, eis que ao descer para o acampamento de altura sou recebido pela Sherpa como se fossem as cadelas que tenho em casa sem me ver ha 1 mês.
E lá continuou e cresceu a relação. Sempre ao
meu lado serviu de guia nos últimos dias numa montanha agreste que ela parece conhecer bem e que não
lhe dá tudo o que
merece.
Defendi a Sherpa de lutas com outros cães ao ser atacada de forma dura, carreguei-a aos braços para a proteger de outros cães mais territoriais, etc !!! sempre feliz.
No momento que escrevo este texto estou deitado numa espécie de refúgio com a Sherpa aos meus pés…. parece me feliz !!! Muito feliz!!! acredito que vao haver mais oportunidades com outras pessoas para ela ser quem é…uma guia dos Himalaias.
Claro que faltava contar o resto da história. Lá passei um dia a seguir os passos dela e ela sempre à espera que eu a seguisse… assim o fiz e até me separei (de forma errada) do meu grupo.
Só temia pessoas com roupas vermelhas (clubismo a parte) pois poderá ter sofrido algo com alguém assim vestido.
Continuei a seguir a Sherpa e notava que cada vez que mais se aproximava de Lukla mais a vontade estava, até com outros cães. Chegados à entrada de Lukla o destino de cada um estava definido, mas a cadela, “fez questão” de me apresentar a família dela.
Momento emocionante que me deixou feliz ao saber que era bem tratada e tinha família (canina e humana).
Vou feliz para casa com algo mais dentro de mim.
ps-fiquei a saber mais tarde que a casa onde vive a Sherpa (nome fictício) é alugada a essa família pelo guia nepalês que tivemos todos os dias nesta aventura. Claro que ele não fazia ideia de quem era a cadela. Coincidências da vida …