26/08/2016
O que sabemos sobre o uso de
Vitaminas no esporte.
Não há dúvidas que as vitaminas são essências para o funcionamento do nosso organismo, que o bom funcionamento é dependente da sua biodisponibilidade, que a sua biodisponibilidade reflete o estado de saúde e, também como veremos, reflete também a performance do atleta.
Pensando na performance física, muitas pesquisas foram realizadas com o objetivo de observar o papel das vitaminas no desempenho atlético. Com isso, o que sabemos até o momento é que a suplementação de vitaminas não exerce um efeito ergogênico na performance, mas a sua deficiência é deletéria. Facilmente encontramos estudos na literatura comunicando achados ergogênicos na performance frente a suplementação de algumas vitaminas, mas geralmente quando esses estudos são replicados de forma mais cuidadosa o que se constata é que: quando os sujeitos possuem uma deficiência vitamínica há aumento da performance frente a suplementação de vitaminas, entretanto, quando não há a deficiência vitamínica não acorre nenhuma mudança visível no desempenho frente aos diferentes protocolos de suplementação de vitaminas [1].
Cabe salientar que ainda não há dados suficientes na literatura para estabelecer as recomendações para atletas, nesse sentido, as recomendações diárias ainda são baseadas nas mesmas recomendações para a população não atlética. Isso se deve ao fato de que o consumo de vitaminas acima dos valores diários recomendado para população não atlética não apresenta benefício adicional a atletas, ao contrário, em alguns casos podem ser até deletérios para a performance. Por isso, não se justifica o uso de suplementos vitamínico para atletas, salvo as exceções discutidas a seguir. Portanto, a seguir serão discutidos pontos relevantes que merecem atenção no esporte, quando o objetivo é manutenção da performance máxima frente a administração de vitaminas.
Nesse sentido, sabe-se que a deficiência vitamínica promove uma queda na performance direta (ou seja, basicamente pela diminuição do metabolismo de energia, ou transporte de O2) e indiretamente (ou seja, pelo aumento do estresse oxidativo-EO e falta de remodelamento dos tecidos desgastados pela prática esportiva). Com isso em mente, as pesquisas relacionadas à suplementação de vitaminas, no contexto esportivo, apontam dois objetivos que serão atingidos, ao IMPEDIR a deficiência vitamínica: 1° impede uma diminuição direta da performance [2] e; 2° combate o EO crônico, principalmente quando é impedido a deficiência de certos minerais (por exemplo, selênio, magnésio e zinco, discutidos em “Minerais”, no próximo post) e fitoquímicos (por exemplo, β-caroteno- precursor de vitamina A) que tem capacidades antioxidantes [3].
Vitaminas que impedem (diretamente) a diminuição da performance
Para impedir a queda direta da performance o foco deve ser direcionado para as vitaminas hidrossolúveis, principalmente as vitaminas do complexo B, porque a deficiência em qualquer umas delas implica em diminuição do metabolismo de energia.
As recomendações de ingestão de vitaminas hidrossolúveis não diferenciam substancialmente entre atletas e não atletas, somente quando a intensidade da demanda energética é alta, as vitaminas do complexo B precisaram ser ingeridas em maior quantidade (justamente por auxiliar o organismo na produção de energia). Entretanto, mesmo em alta demanda energética, não é necessário o uso de suplementos vitamínicos, pois a necessidade pode ser suprida com uma alimentação balanceada que atenda a necessidade calórica do atleta, ou seja, o aumento da ingestão de alimentos para suprir as necessidades calóricas levará também ao aumento da ingestão de vitaminas [2]. Ao contrário, em desportistas é importante ter cuidado com restrições calóricas, concomitante ao alto dispêndio de energia, nesses casos o atleta pode sofrer deficiência em vitaminas do complexo B, caso ocorra esse fato (restrição calórica e alto dispêndio energético), é recomendado uma suplementação desse complexo vitamínico, para atingir os valores diários necessários.
Ainda pensando em suplementação, ultrapassar as necessidades diárias para o excesso de vitaminas do complexo B não implica em efeitos colaterais deletérios a saúde ou a performance, com a exceção para a vitamina B6 (que podem ultrapassar facilmente as necessidades diárias frente à prática de suplementação). O excesso de B6 pode impedir o metabolismo de gordura, priorizando a utilização de CHO no metabolismo de energia, levando assim, ao esgotamento do glicogênio hepático e muscular (o que pode levar o indivíduo a fadiga precocemente) [2]. Outro ponto importante para ficar atento em se tratar de suplementação de vitaminas B para desportistas é para o caso da vitamina B12 em específico (uma vez que sua fonte natural é a partir de fontes animais). Nesse sentido, nos casos de desportistas vegetarianos e atletas que têm deficiência na sua absorção devido a uma baixa produção de fator intrínseco (comum em idosos), ou gastrite atrófica, a suplementação de B12 é necessária [2].
A ingestão de outras vitaminas como folato (a deficiência prejudica o transporte de O2), Biotina, ácido pantotênico (a deficiência perturba o metabolismo de energia) são aconselhados a serem mantidos dentro dos valores estabelecidos para a população não atleta (aumentar a sua ingestão não melhora a performance, mas a sua deficiência é prejudicial tanto para a performance como para a saúde).
A deficiência de colina é improvável frente a uma alimentação balanceada, aparentemente, manter essa vitamina em concentrações ótimas (>550 e >425mg para homem e mulher, respectivamente) parece aumentar o metabolismo de gordura (maior oxidação) [2], mesmo frente a uma dose aguda de 0,05 g·kg-1 [4]. Entretanto, ultrapassar o limite de 3500mg/dia causa diversos efeitos colaterais (pressão baixa, diarreia e odor de peixe) [2]. Para essas vitaminas, às suas necessidades diárias em atletas podem ser suprida frente a uma alimentação balanceada.
Vitaminas, estresse oxidativo (EO) e seu papel na performance atlética
Já no que diz respeito à queda indireta da performance, alguns estudos foram conduzidos com o objetivo de verificar se ao impedir o EO agudo produzido pela atividade física poderia promover um aumento na performance [12]. Entretanto, ainda não sabemos ao certo se o EO é uma causa ou uma consequência da fadiga [13]. O que sabemos no momento é que não é efetivo (pensando em longo prazo) suplementar com vitaminas antioxidantes antes da prática de exercício [5], se isso for mantido em longo prazo as adaptações ao treinamento serão prejudicadas [12, 3].
As vitaminas lipossolúveis (A e E), junto com a vitamina C, devido suas capacidades antioxidantes, são vitaminas geralmente encontrada em suplementos antioxidantes. A justificativa para a prescrição desses antioxidantes antes da prática do exercício baseia-se no fato de que durante a prática esportiva ocorre o aumento agudo do EO (isso de fato ocorre). É especulado que frente a um deficiente sistema antioxidante o aumento do EO pode degeneração e induzir a morte celular (devido à peroxidacão lipídica). Nesses casos, alguns estudos concluem que, ao IMPEDIR a deficiência de antioxidantes, a performance pode ser preservada [13]. (O termo “impedir” está em letras maiúsculas para informar que o objetivo é impedir e deficiência e não promover a suplementação acima das recomendações diárias).
Somente exercício físico induz a produção de espécies reativas de oxigênios (ROS) o que induz a expressão gênicas de marcadores de biogênese mitocondrial e de enzimas
Figura 2. É bem estabelecido que somente exercício físico promove o aumento agudo da produção de espécies reativas de oxigênios (ROS), isso induz a expressão gênicas de marcadores de biogênese mitocondrial (PCC-1α, NFR, Tfam) e de enzimas e de enzimas do sistema antioxidante endógeno (SOD, CAT, GPX) [12]. O aumento da NADPH oxidase durante o exercício físico (principal fonte de ROS durante o exercício físico) também induz a biogênese de enzimas antioxidante, a utilização de antioxidantes para inibir a sua atividade mitiga essas adaptações [5]. Figura retirada de Mankowski et al. [12].
Como já mencionado, esses achados supracitados, ocorrem em indivíduos com deficiência no sistema antioxidante (por exemplo, idosos ou deficientes vitamínicos e de alguns minerais) [3]. A população atlética não sabe disso, pois estudos apontam que atletas geralmente excedem as recomendações em vitaminas C e E, além de outras vitaminas [3]. Nesse sentido, é necessária orientação para a não necessidade de suplementação de vitaminas uma vez que, essas necessidades podem ser supridas frente a uma dieta balanceada que supra as necessidades energéticas diárias do atleta [2]. Além disso, o EO agudo promovido pelo exercício induz a melhora do sistema antioxidante endógeno (o mais importante) [5], veja a Figura 2.
No esporte, é necessário cuidado com o excesso de vitaminas antioxidantes, pois algumas evidências apontam que o aumento da ingestão de vitaminas C e E, além da necessidade diária, pode prejudicar a adaptação ao treinamento (porque a produção de radicais livres promovido pelo exercício físico está relacionada a processos que estimulam a síntese proteica); além disso o excesso de vitamina E já foi relacionado com o aumento do risco de morte [3].
Impedir a deficiência de outras vitaminas lipossolúveis também são (indiretamente) importantes para a performance, por exemplo:
– A vitamina A (ou retinóides) têm funções importante para a saúde da visão, do funcionamento do sistema imune e diferenciação celular. Com essas funções, em particular, devido a sua capacidade de promover a diferenciação celular, a vitamina A pode atuar como um cofator que auxilia o processo de regeneração do mais variados tecidos desgastados pela prática de desportiva. Além disso, é um antioxidante. É recomendado que atletas obtenham essa vitamina a partir de fontes naturais para evitar intoxicação [2].
– A vitamina D (considerado um hormônio seco esteroide) promove a saúde óssea e muscular através da promoção da homeostase do cálcio, além disso, têm influência no bom funcionamento do sistema imune [6]. Para suprir as necessidades de vitamina D é necessário exposição ao sol, para promover a sua síntese, ou ingerir alimentos com seu enriquecimento. Devido a essa dificuldade (necessidade de exposição ao sol ou encontrar alimentos enriquecidos) é frequente a deficiência em vitamina D, inclusive em atletas [6]. A deficiência em vitamina D está relacionado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, algumas formas de câncer, deficiência cognitiva e fraqueza muscular [6, 7]. Interessantemente, três meta-análises mostraram que a suplementação de vitamina D, a fim de otimizar as suas concentrações no corpo, promoveu aumento da força muscular em indivíduos com fraqueza muscular [8], em indivíduos saudáveis [6] e em mulheres idosas [9]. Esses achados sugerem uma grande suscetibilidade de deficiência em vitamina D que estão sujeitos os atletas. Nesse sentido, é necessária uma maior atenção na dieta para escolher alimentos enriquecidos em vitamina D ou com seus precursores (combinado à exposição ao sol) e avaliações periódicas das suas concentrações séricas. À importância da vitamina D na saúde óssea é indiscutível, principalmente no esporte, que exige muito desse tecido. Em todas as modalidades esportivas de contato e impacto, uma estrutura óssea forte e saudável é de extrema importância para prevenir fraturas/lesões. Além disso, à medida que a massa muscular se desenvolve (ficando mais forte e volumosa devido ao treinamento) o osso precisa acompanhar esse desenvolvimento para suportar as crescentes agressões que os músculos exercem sobre ele, se o osso não acompanhar esse desenvolvimento pode aumentar o risco de fraturas/lesões ósseas de arranchamento de tendões.
-Manter os níveis de vitamina K é importante para a manutenção da saúde óssea (ao auxiliar o depósito do cálcio na matriz óssea, deixando os ossos mais fortes e resistentes) e coagulação do sangue em situações de sangramento (Fink et al., 2013).
Conclusões
Ao contrário do que o senso comum acredita, vitaminas não são ergogênicos. É necessário somente o cuidado para os atletas não ficarem deficientes em vitaminas. Esse cuido precisa de atenção especial em situações como: altas cargas de treinamento acompanhado de uma restrição calórica, atletas vegetarianos ou que possuam deficiência na absorção de B12.
Observa-se também uma grande preocupação com suplementação de antioxidantes para atletas, entretanto, as evidências mais recentes indicam que atletas não precisam deste tipo de intervenção. A prática de exercício físico já promove essa melhora [5, 10, 11], veja também um post nosso, sobre este tema.
Referências
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Fink, H.H., W.S.L.H.H. Fink, and A.E. Mikesky, Practical applications in sports nutrition. 2013: Jones & Bartlett Publishers.
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13. Reid, Michael B. “Reactive Oxygen Species as Agents of Fatigue.” Medicine and science in sports and exercise (2016).