04/08/2014
O GÊNIO COMETA
Renascimento. Essa palavra sintetiza a passagem de Ronaldinho Gaúcho pelo Atlético MG. Aos 34 anos o malabarista gaúcho, afirma que seguirá jogando, entretanto é fácil saber que daqui por diante, será á título de “exibição”.
Mas hoje, por dever de consciência, me debruço sobre o teclado para emitir meu terceiro e definitivo parecer sobre Ronaldinho Gaúcho.
Quando surgiu no Grêmio, aos 18 anos, confesso que fiquei assustado. Um incrível repertório que mesclava; estupenda habilidade, poder de finalização, força física, destreza no passe, ousadia, inteligência, visão de jogo, grande capacidade na bola parada, e muita inventividade, me “fez temer” por Zico e Maradona; até então minhas referencias de gênio, sempre com a ressalva que “Pelé não é humano”.
Os primeiros e brilhantes passos no tricolor gaúcho, jogo á jogo, reforçavam minha impressão inicial. De fato tudo indicava que ele seria mais letal e fulminante que Zico, e mais efetivo e mágico que Maradona. Não Foi!
Mesmo nos primeiros e brilhantes anos iniciais na Europa, onde encantou Paris e posteriormente deslumbrou Barcelona e o mundo, conquistando dois títulos de melhor jogador do planeta em 2004 e 2005, comecei a mudar meu conceito sobre Ronaldinho.
Se mostrou muito menos perigoso e fulminante que Zico, e menos espetacular que Maradona. Á despeito de algumas obras de arte realizadas no Camp Nou, a sensação era que Ronaldinho, apenas estava “brincando em campo”, no mal sentido do termo. Nesse momento minha grande expectativa inicial em relação á ele se dissipou. Essa postura certamente fez com que seu “cartel”, seja bem mais pobre do que de fato poderia ter sido.
A era pós Barcelona foi melancólica, ao menos em campo. Se fora deles, o jovem e arquimilionário Ronaldinho gozava da fortuna e da fama, desfrutando de prazeres que só quem detém essa rara combinação pode ter, a bola, dia á dia, era cada vez mais uma coadjuvante em sua rotina.
Passou a ser triste ver o “craque do sorriso” jogando. Antes dos 30 anos,transformou-se numa caricatura de si mesmo. Impiedosamente expurgado pelo mercado europeu, restava a grife “Ronaldinho Gaúcho”. Essa ainda atraente ao fraco futebol brasileiro “by século 21”. A apagada volta ao Flamengo parecia ser seu crepúsculo.
A má condução da carreira e a postura relapsa diante da profissão, até referendavam um fim obscuro, mas seria cruel ver um raríssimo talento como ele, sair de cena pela porta dos fundos. E foi ao ser recebido com as portas de seu coração escancaradas, que a apaixonada torcida do Atlético Mineiro, dignificou o outono da carreira de Ronaldinho.
Mesmo que distante do auge, os torcedores do atleticanos, ainda tiveram a chance de ver um Ronaldinho com lampejos do craque outrora incomparável. As balzaquianas e já cansadas pernas de tantas batalhas, ainda conservavam uma habilidade circense, que foi capaz de protagonizar lances que entraram para antologia do Galo.
Após essa redenção, preciso, pela terceira vez, remontar meu derradeiro conceito sobre Ronaldinho Gaúcho. Como jogador, chamá-lo de bom ou ótimo, não serve, pro seu talento isso soa como esmola. Craque? Talvez; ainda acho pouco! Ficam faltando então 3 categorias. Gênio; nessa estão Zidane, Cruyff, Platini e Rivellino. Na seqüência temos o posto de lendas, onde Garrincha, D´Stefano, Maradona e Zico fazem morada. E posteriormente há a categoria “Pelé”, onde o próprio figura solitário.
Posto isso, coloco Ronaldinho numa quarta e exclusiva categoria. A do “Gênio Cometa”. Indiscutivelmente, ele fez sim, coisas que só um gênio é capaz de realizar, todavia por um período breve, tal qual a passagem de um cometa. E como cometas são fenômenos raros, visíveis á cada 50 ou 100 anos, ao menos por esse período, é certo que Ronaldinho manterá seu legado impresso na história do futebol com sua curta, mas espetacular e fantasiosa passagem pelos campos do mundo.
André Biaggioni 01/08/2014