23/04/2026
LER UM LIVRO, LER O MUNDO... É NUTRIR-SE DE CONHECIMENTO
FBLP – Entre Desafios e Realizações
Da relevância do livro e da leitura
Celebra-se hoje, 23 de Abril de 2026, o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais. E, a 5 de Maio, o Dia da Língua Portuguesa. São duas datas de inestimável importância, particularmente, para o nosso país, Moçambique: pela relevância do livro – em qualquer suporte ou formato (físico ou electrónico) – e da leitura, no desenvolvimento da nação, e pela importância que a língua portuguesa, a nossa língua oficial e da unidade nacional, goza no seio da nossa sociedade. O livro é um veículo de conhecimento; e a leitura o meio pelo qual o livro ganha “vida”, um exercício para o cultivo do intelecto, para a erudição. Depreende-se, daqui, a sua relevância. Porém, de algum tempo para cá, esse exercício vem registando um declínio progressivo, com consequências cada vez mais críticas. Quer no domínio da comunicação oral como no da escrita.
A contínua queda da apetência para a leitura, especialmente no seio da camada jovem, arrasta-se com o tempo, tendo merecido atenção de diversas entidades. Os relatórios da avaliação da leitura e escrita feitos em 2013 e 2016 pelo Ministério da Educação, por exemplo, apontam para um agravamento dos índices de leitura e escrita de 6.3% para 4.9%, respectivamente (MINED, 2019). Em 2021, o Banco UBA (United Bank for Africa) desenvolveu o projecto Read Africa (Leia África) como uma necessidade para conter o declínio da cultura de leitura (Cf. em https.www.ubamozambique.com). No âmbito académico, inúmeros trabalhos de pesquisa (Cf. em Buendia, 2010; De Paula & Quiraque, 2015; Menezes, 2016; Faquir, 2016) apontam para a problemática da leitura em diferentes níveis de ensino, oscilando entre a sua (in)capacidade e défice. Este problema está na origem da preocupação quase generalizada da sociedade, motivando debates e discursos de apelo com vista à sua provável reversão.
O problema não é novo; continua actual e pertinente. Nenhuma sociedade se desenvolve sem o conhecimento adquirido, sobretudo, na leitura. A leitura não sofre erosão com o tempo; e os esforços para minorar os efeitos negativos da sua fraqueza são levados a cabo por várias instituições, entre as quais o Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa (FBLP).
O papel do Fundo Bibliográfico
Desde a sua criação como “Projecto de Expansão de Fundos Bibliográficos de Língua Portuguesa em Moçambique”, em 1988, o FBLP – como organismo dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) tutelado pelo governo moçambicano – vem desenvolvendo actividades voltadas para a promoção do livro e da leitura nessa língua. Desse modo, chama a si a missão de, através do livro – entendido este como veículo de informação e de leitura –, procurar encontrar formas de minimizar as dificuldades de acesso à informação em língua portuguesa e, consequentemente, reduzir os efeitos negativos dessas dificuldades sobre os processos do desenvolvimento sócio-económico e cultural de Moçambique, principalmente nas áreas da educação, da formação técnica e científ**a, e da cultura geral. Para a realização dessa missão, o FBLP desenvolve programas e acções que promovem a apetência pela leitura e escrita nos moçambicanos, em especial no seio dos jovens e crianças.
São actividades promovidas pelo Fundo Bibliográfico:
i. Apetrechamento de bibliotecas de carácter geral e escolar;
ii. Promoção à edição e incentivo à produção literária;
iii. Apoio à disponibilização ou promoção do livro;
iv. Apoio à formação e desenvolvimento profissionais nas áreas de Documentação e Informação. Entre outras actividades – inclusive, de consultoria.
Das realizações e desafios:
a) Apoio à rede de bibliotecas e escolas
O país conta, actualmente, com uma rede de 61 bibliotecas públicas, segundo os dados actualizados em 2025 pela Biblioteca Nacional de Moçambique (BNM). Destas, temos uma (1) Biblioteca Nacional; dez (10) Bibliotecas Públicas Provinciais; cinquenta (50) Bibliotecas Públicas Distritais, situando-se estas em 31,1% de cobertura das bibliotecas para os 161 distritos do país. Ou seja, persistem desafios de cobertura das bibliotecas. Contudo, é preciso ressalvar que estes números excluem as demais bibliotecas, como as municipais, escolares e comunitárias, que também existem.
Essas cifras reflectem avanços e retrocessos no processo de implantação de bibliotecas, num esforço levado a cabo por diversas instituições e parceiros. Por exemplo, o Fundo Bibliográfico, que apoiou a revitalização das bibliotecas provinciais, tendo iniciado pela de Inhambane e terminado pela de Tete, financiou a construção da Biblioteca Pública Distrital de Magude, na província de Maputo, que, posteriormente, veio a ser assolada por um vendaval que a tornou inoperacional. À semelhança, várias outras sofreram o mesmo fenómeno, sobretudo nas regiões centro e norte do país, com a passagem de diferentes ciclones.
Com a acentuada redução do orçamento de investimento, o FBLP e seus parceiros concentraram esforços no apoio a dotações bibliográf**as. Por exemplo, nos últimos dez (10) anos – com a actual direcção, empossada em 2014 –, o FBLP apoiou cerca de 1.106 instituições entre bibliotecas públicas, escolares, comunitárias e outras instituições do Estado. Nestes apoios, foram alocados cerca de 45.721 livros de temática diversa.
Para responder a uma área fundamental para o desenvolvimento do país, o combate à iliteracia, o FBLP firmou, em 2019, um Memorando de Entendimento com o Banco de Moçambique, que vigorou durante cinco (5) anos. Essa parceria permitiu a viabilização de actividades já realizadas de forma autónoma por cada instituição, numa estratégia conjunta que abrangeu certos distritos de todas as províncias através de projectos de Bibliotecas-Caixa, para Escolas Primárias, e apoio às Bibliotecas Públicas provinciais e distritais. Vale recordar que o país conta com cera de 14.066 escolas primárias, a maioria das quais sem bibliotecas que permitam o acesso ao livro e à leitura.
No esforço para minorar esse défice, em dotações bibliográf**as, foram alocadas cento e vinte (120) Bibliotecas-Caixa em igual número de escolas primárias localizadas em diferentes distritos: no 1˚ e 2˚ anos (2020/2021) foram alocados 1.520 livros infanto-juvenis em 30 escolas dos distritos de Chongoene, província de Gaza; Angónia, em Tete, e Namuno, em Cabo Delgado. No 3˚ ano (2022) foram alocados 1.770 livros infanto-juvenis em 30 escolas dos distritos de Matutuine, na província de Maputo; Inhassunge, na Zambézia, e Marrupa, no Niassa. No 4˚ ano (2023) foram alocados 1.799 livros infanto-juvenis em 30 escolas dos distritos de Funhalouro, na província de Inhambane; em Vanduzi, Manica, e Angoche, em Nampula. No 5˚ ano (2024) foram alocados 2.061 livros infanto-juvenis em 30 escolas dos distritos de Mabalane, em Gaza; Cheringoma, em Sofala, e Milange, na Zambézia. Ainda ao abrigo da mesma parceria, o FBLP planificou e efectuou a distribuição de quinze mil, duzentos e sessenta e um (15.261) livros do projecto Books for Africa (Livros para África) com temática diversa a universidades, escolas secundárias, bibliotecas municipais e comunitárias.
No âmbito da parceria com a Acção e Integração para o Desenvolvimento Global (AIDGLOBAL) – uma Organização Não Governamental Portuguesa, que actua na educação e cidadania global e focada na redução da iliteracia, o FBLP alocou, no ano de 2022 – por intermédio da Biblioteca Nacional –, 204 livros infanto-juvenis para 50 bibliotecas públicas (províncias e distritais), tendo cada uma recebido 4 livros.
b) Apoio aos estabelecimentos penitenciários
Ciente das condições deficitárias que assolam diversos estabelecimentos nacionais em dotações bibliográf**as, o FBLP vem desenvolvendo acções que visam a sua mitigação junto, inclusive, dos Serviços Nacionais Penitenciários (SERNAP).
Entre os apoios prestados a essas instituições destacam-se, a título de exemplo, em 2024: oferta de 257 livros ao Estabelecimento Penitenciário Especial de Máxima Segurança da Machava, BO; 50 livros ao Estabelecimento Penitenciário de Maputo. Em 2023, 1.000 livros ao Estabelecimento Penitenciário Especial de Recuperação Juvenil de Boane, na província de Maputo. Em 2022, 200 livros ao Estabelecimento Penitenciário Especial de Mulheres de Ndlavela. 2020, 400 livros ao Estabelecimento Penitenciário Provincial de Maputo, 100 ao Estabelecimento Penitenciário Especial de Máxima Segurança da Machava, BO, e 100 ao Penitenciário Especial de Mulheres de Ndlavela. Já na província de Gaza, 100 ao Estabelecimento Penitenciário Regional Sul (Mabalane) e, na província de Nampula, 100 ao Estabelecimento Penitenciário Regional Norte (Cidade de Nampula).
c) Feiras do livro
Ainda dentro da sua linha de actuação, o FBLP vem implementando o projecto Feira do Livro. O objectivo destas feiras que se realizam nos distritos, onde não existe uma rede de distribuição e comercialização do livro, é promover o acesso ao livro: no sentido de o fazer chegar onde, de outro modo, dificilmente chegaria e, também, no sentido de disponibilizá-lo a um preço mais baixo do que aquele em que é normalmente vendido.
O acto de disponibilizar o livro é apenas um ponto de partida, pois o objectivo principal das feiras (e também para todos os outros livros comprados, emprestados, recebidos de oferta, aqui e em qualquer outro lugar) é que sejam lidos. Assim, na visão institucional, promover o acesso ao livro é também contribuir para uma das outras atribuições do FBLP: promover o gosto e incentivar a leitura.
A acção de leitura e escrita promove não apenas a decifração de palavras e números, mas também a leitura e compreensão do mundo circundante através de:
(i) entendimento de assuntos distintos;
(ii) contacto com várias culturas diferentes;
(iii) formação de ideias próprias e maduras sobre os fatos;
(iv) conhecimento da própria história;
(v) enriquecimento do vocabulário;
(vi) melhoria da performance comunicativa e escrita; e
(vii) aquisição de informação.
Daí a adopção do slogan LER UM LIVRO, LER O MUNDO…
Tendo em mente esta vertente de actuação, o FBLP introduziu, em 2016, actividades paralelas à Feira do Livro, designadamente, sessões de animação de leitura, concursos de contação de histórias, ler e compreender, desenho e pintura, declamação de poesia, redacção, palestras e encenação de contos, em que os participantes ouvem e contam ou recontam histórias ou respondem a questões a elas relacionadas, ilustram-nas através de desenhos e pinturas e/ou encenam-nas. Ao se agregarem essas actividades às feiras do livro, procura-se despertar nas crianças, adolescentes e jovens o interesse pelo livro e o gosto pela leitura.
A partir da conjugação das acções da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), de apoio ao desenvolvimento da comunidade – no âmbito da sua responsabilidade social –, com as atribuições do FBLP, foram realizadas oito edições da Feira do Livro do Songo, de 2012 a 2020, com obras de temática diversa: culinária, agro-pecuária, ciências exactas, ciências sociais, da linguagem, literatura moçambicana e universal, entre outras áreas, com descontos de custos que variavam de 40% a 60%. Outras feiras, exclusivamente realizadas pelo FBLP, tiveram lugar em diversos pontos do país: Dondo, em Sofala, Mocuba e Chinde, na Zambézia, Nacala, em Nampula, e Lichinga, no Niassa, entre muitos outros lugares.
d) Feiras de leitura
O Fundo Bibliográfico introduziu, também em 2016, a Feira de Leitura – uma vertente de feira virada, fundamentalmente, para acções de leitura. Compõem a Feira de Leitura: oficinas de leitura e de escrita criativa, oficinas de desenho e pintura, de ludopedagogia para professores, pais e encarregados de educação, palestras, contação de histórias, entre outras. A filosofia da Feira de Leitura está imbuída no provérbio popular “de pequenino se torce o pepino”; porque, nos dias que correm, em que predominam as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), não basta disponibilizar o livro: é necessário desenvolver actividades que incentivem o gosto pela leitura, sobretudo nas crianças e adolescentes. Trata-se, pois, de uma nova aposta do FBLP, levada a cabo em parceria com governos provinciais.
Em resposta a esse projecto da Feira de Leitura, o Fundo Bibliográfico assinou, em 2017, um Memorando de Entendimento com o Governo da província de Inhambane, para a realização anual da feira Provincial de Leitura. Esta feira, realizada anualmente, já conta com oito (8) edições. Infelizmente, os governos das restantes províncias não aderiram ao projecto; mas o FBLP continua aberto para firmar parcerias com os governos que se possam interessar.
e) Edição e produção literária
No domínio da promoção da edição e incentivo à produção literária, o FBLP editou diversas obras institucionais e de singulares, em forma de patrocínios. Já no sentido de preencher um espaço imprescindível na sociedade moçambicana, relativo à divulgação e tratamento de matérias de natureza literária e cultural, o FBLP lançou a revista PROLER para não só divulgar as realizações da instituição, mas também os principais eventos literários e culturais do país e do mundo. Foram 27 números publicados irregularmente, de 2001 a 2014, devido a insuficiências financeiras. Ainda assim, em 2018, com o apoio de parceiros, o FBLP publicou o número 28, que foi distribuído a bibliotecas públicas distritais, provinciais e escolares, a instituições do Estado moçambicano, embaixadas e consulados dos PALOP.
Ainda no quadro das suas atribuições, o FBLP criou o projecto “Edição dos Materiais da Campanha Nacional de Preservação e Valorização Cultural”, campanha desenvolvida em todo o país entre 1979 e 1983, sob a direcção do então Serviço Nacional de Museus e Antiguidades (S.N.M.A), da Direcção Nacional da Cultura do Ministério da Educação e Cultura, então liderado por S. Excia. a Doutora Graça Machel. A procura crescente desse material levanta, pelo menos, dois desafios: por um lado, a necessidade de uma tomada de medidas eficientes e ef**azes para a protecção contra o desaparecimento ou danif**ação do património cultural do país e, por outro, a necessidade da criação de mecanismos que facilitem o acesso deste tipo de arquivo ao público interessado.
Com o objectivo de concretizar essas pretensões, o então Ministério da Cultura, Juventude e Desportos e o FBLP assinaram, em 1999, um Memorando de Entendimento para a publicação do material recolhido na campanha. Esse Memorando contemplava, ainda, a constituição de equipas pluridisciplinares para a realização de pesquisas, promoção e valorização do património e a divulgação dos materiais produzidos durante a Campanha. Em Junho de 2000, o FBLP e o Arquivo do Património Cultural – Instituto de Investigação Sócio-Cultural (ARPAC) elaboraram uma proposta técnica para a concretização do Memorando.
Assim, em 2020, foi concluída a edição do Volume I, Organização da Campanha & Exploração Mineira e Trabalho com Metais, como resultado de esforços conseguidos a partir dos exíguos recursos do Orçamento do Estado. No mesmo ano, como resultado do Memorando de Entendimento (2019-2024) assinado entre o FBLP e o Banco de Moçambique (BM), iniciou-se a edição do Volume II – A Aldeia tradicional. Entretanto, devido à complexidade da organização dos materiais – alguns dos quais perdidos ou danif**ados – e das restrições impostas pela Covid-19, a edição e impressão desses volumes só foi concluída em 2023 e 2024, respectivamente. A edição do Volume III, A Habitação Tradicional, também financiada no âmbito do Memorando entre o FBLP e o BM, foi concluída em 2025. No mesmo ano, teve lugar o lançamento dos dois primeiros volumes, num evento realizado na Universidade Eduardo Mondlane. A apresentação das obras coube à Sra. Graça Machel. Os materiais da Campanha, que se estima que poderão compor mais de dez (10) volumes, continuam disponíveis, carecendo de financiamento para a continuidade da sua edição por parte do Fundo Bibliográfico.
Ou seja, as acções de promoção do livro e da leitura levadas a cabo pelo FBLP são inúmeras. Aqui procuramos apenas trazer as consideradas mais proeminentes. Outras actividades circunscrevem-se a palestras, seminários, participações em mesas-redondas, em eventos nacionais e internacionais, em escolas de diferentes níveis e institutos de formação de professores (IFP), exposições sobre a língua portuguesa, eventos televisivos e radiofónicos sobre a leitura e concursos literários, bem como acções de formação em matérias de biblioteconomia e arquivística, através do Instituto de Ciências Documentais (CIDOC), braço do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa.
Viva o livro!