21/10/2021
Como no fim-de-semana anterior estava a chover, adiamos a ida a Santiago pela costa para os dias 9, 10 e 11 de outubro. No dia anterior da partida, à noite, ligo para o Jorge para confirmar se sempre vai, apanhei-o ocupadíssimo a tentar cortar a escova de dentes…o quê??? Disse-lhe para chegar cedo e despedi-me com a impressão que as minhas brincadeiras tinham causado mossa. Cortar a escova, fez-me lembrar o Mr. Bean e imaginava-o a fazer o mesmo. No outro dia aparece cedinho e lá partimos, na zona a seguir à Póvoa de Varzim distrai-se, olha para o lado e quando olha para a frente trava de repente evitando de se espetar contra uma floreira gigante. A roda da frente estancou e vejo o Jorge, tipo Matrix a saltar por cima da floreira e cair de costas. Eu travo o mais rápido que posso, s**o do telemóvel, mas ele ainda mais rápido perante uma plateia sentada na esplanada, levanta-se e não consigo tirar a foto. Resmunguei com ele e pensei que uma câmara para filmar teria sido o ideal. O rapaz estava bem, rasgou um pouco a mochila, mas a co**ha de Santiago tinha-se aguentado bem. Lá continuamos o caminho comigo a pensar se a coisa tivesse corrido mal teria de levar as 2 bikes de transporte público, que canseira que ia ser. Seguimos em direção a Viana do Castelo e paramos numa versão do Natário sem fila para comer a bola de Berlim, mas pareceu-me uma bola igual às outras, polvilhada com canela. A partir daí o caminho deixa a costa e segue por um misto de caminhos de paralelo e trilhos fabulosos com muita pedra, muito bonitos. O Jorge passava o tempo a parar para subir o espigão do selim e apertar o chouriço que levava no selim e eu achava que tinha os alforges com excesso de peso, devia ter cortado a escova de dentes, teria feito toda a diferença . Chegamos a Vila Praia de Âncora e a partir daí seguimos junto ao mar, com bastante nevoeiro e penso se conseguiremos passar o rio Minho de barco. Decido acelerar, pois tinha como objetivo chegar a Vigo. Olho para trás e vejo o vulto de um senhor idoso numa bicicleta, não, afinal era o Jorge mais morto que vivo, desmoralizado com a minha investida. Chegados ao barco o senhor diz que pode levar-nos, entretanto chegam 2 ciclistas que dizem que junto ao Ferry Boat o senhor do barco estava com medo de passar. Lá passamos os 4 com as bicicletas e parecia que estávamos nos fuzileiros, a picar as ondas e a água e entrar, mas lá conseguimos chegar à outra margem e saímos diretamente na praia. Olho para o relógio e vejo que são 3 horas e digo para nos apressarmos para chegarmos a Vigo. O Jorge diz que já são 4 horas em Espanha e que o rabo estava a acusar os Kms. Contrafeito aceito f**armos no albergue de A Guarda, éramos os primeiros a chegar e só apareceriam mais 2 peregrinos a pé, o fim-de-semana passado tinha enchido, mas este estava mais calmo. Lá seguimos para uma visita à cidade e sua fortaleza e seguimos em busca de local para jantar, um hambúrguer com batatas acompanhado de uma estrela Galícia.
No outro dia acordamos cedo e fartos de esperar pela luz do dia, partimos, e ao raiar do dia paramos na esplanada do Horizonte que estava a abrir, para um cafezinho. Lá seguimos e antes de Bayona o caminho segue pelas montanhas acima ou pela estrada numa versão mais soft. Decidimos subir e viria a tornar-se o melhor local do caminho para mim, aquela subida não tinha fim e consegui fazer tudo sem desmontar, estava orgulhoso, depois trilhos de pedra que me deixaram com um sorriso de orelha a orelha, mas o pior estava para vir, a travessia de Vigo, diversos relatos e até o senhor do barco diziam que o melhor era junto à costa, um inferno atravessar aquela cidade, mal sinalizada. Penso que o caminho mais interior será mais agradável. No final da cidade subimos e subimos outra vez, aí tive de desmontar e já estava um pouco cansado, mas no final encontrámos um caminho em terra muito agradável, onde o Jorge pôde pôr em prática a sua veia escutista e ajudar uma senhora que se tinha magoado, com betadine. O Homem tinha tudo. Em Redondela apanhamos o caminho central e seguimos até Pontevedra. A minha ideia era fazer o caminho espiritual, uma versão muito bonita que passa na ria de Arousa, mas o caminho aparentava ser duro, por isso já tinha desistido da ideia com medo de me atrasar na chegada a Santiago. F**amos no albergue de Pontevedra e não seguimos com receio de não ter lugar no albergue seguinte, andava muita gente naquela parte do caminho, porque no dia seguinte era feriado em Espanha. Com os supermercados fechados ao domingo, lá tivemos de jantar fora outra vez e conhecer um pouco a cidade. O Jorge aproveitou para ir a uma farmácia comprar halibute e a menina com pena do estado deplorável dele, ofereceu-lhe uma amostra de um creme.
Essa noite dormi maravilhosamente, o que signif**ava algum cansaço. Partimos e a partir daí encontraríamos muita gente no caminho, grupos e até cavalos, o que dificultava a nossa passagem, mas dava para observar a beleza do caminho. Na interseção do caminho central com a variante espiritual, despeço-me do Jorge e viro à esquerda, seguindo ele pela direita. Passado um pouco volto para trás e encontro-o no final de uma subida, sentado, fizemos as pazes e eu meio lacrimejante desisto em definitivo da alternativa com que sonhava dias antes. O resto do caminho ainda nos reserva algumas partes duras, mas lá chegamos ao fim. Tiramos um ticket para levantar a Compostela e fomos almoçar enquanto esperávamos pela nossa vez. Quando estava quase a ir buscar a Compostela recebo um email da Flixbus a dizer que não seria possível levar as bicicletas, ma***to email, fiquei stressado, levantei a Compostela e partimos depressa para a estação para perceber o que podíamos fazer, tínhamos de regressar a casa. No balcão dizem que podemos levar as bikes embaladas, mas o nosso receio era que aparecessem muitas bicicletas e o motorista não deixasse embarcar. Lá embalamos as bicicletas e esperamos ansiosamente, eu afogando o stress com uma cerveja, e a pensar o que iríamos fazer. O autocarro chega e pegámos nas embalagens e atiramos para a bagageira, o motorista vê e pergunta se temos bilhete para as bikes, lá explico que não dá para comprar no site e que temos de pagar a ele. Lá nos deixa seguir e respiramos de alívio. Como é possível não permitirem o transporte de bicicletas em Santiago, só a partir de Vigo, não entendo.
Chegamos a Vila Nova de Gaia, junto ao metro e vamos até General Torres, tendo de esperar pelo comboio que nos levaria até minha casa. Uma longa espera e o Jorge desesperava e pela milionésima vez dizia que queria um táxi, mas lá fomos no último comboio. Ele ainda tem uma viagem de 50 Kms até casa de carro. Obrigado Jorge, pela paciência em me aturar, foi um prazer pedalar contigo!
Adorei a “Peregrinação” e no outro dia digo ao Jorge para treinar que para o ano vamos fazer o Caminho Primitivo. Ele achou que eu era maluco, ainda o rabo não se refez desta aventura e já falo noutra, e logo o caminho mais difícil?
Como dizia um colega com quem tive o prazer de pedalar e que já nos deixou,
“É sempre a descer até lá acima!”