Carlos Guerreiro - Treinador de Golfe

Carlos Guerreiro - Treinador de Golfe

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🏌️‍♂️ Jogador Golfe SL Benfica
🎙️ Golfe 100 Segredos @golfe_100_segredos
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🏥 Fisioterapeuta @lisboa_physio

09/05/2026

Crónicas do Golfe #8 — A modalidade subestimada: Pitch and Putt
No mundo do golfe todos falam dos grandes campos, dos drives longos, dos buracos icónicos… mas poucos falam da base que realmente constrói bons jogadores. Hoje quero defender uma modalidade muitas vezes vista como “menor”, mas que, na verdade, é uma das melhores portas de entrada e ferramentas de evolução no golfe: o Pitch and Putt.
Começar no golfe pode ser intimidante. Campos compridos, equipamento caro, regras complexas, tempo necessário, para muitos iniciantes é informação demais, demasiado cedo. É aqui que o Pitch and Putt entra em jogo!
Quais as vantagens:
1) Menos equipamento, menos barreiras:
Para jogar Pitch and Putt não é preciso um s**o cheio de tacos. Normalmente, um Pitch, um sand wedge e um putter chegam perfeitamente. Isto reduz o investimento inicial e remove uma grande barreira psicológica: não é preciso “ter tudo” para começar.
2) Green-fee muito mais acessível:
O custo por volta é signif**ativamente mais baixo do que num campo tradicional. Isto permite jogar mais vezes, treinar com regularidade e evoluir sem sentir que cada volta é um grande investimento.
3) Aprender primeiro o jogo curto (a verdadeira base do golfe):
Há uma verdade incontornável: a maioria das pancadas num campo de golfe acontece a menos de 100 metros e no green. O Pitch and Putt obriga o jogador a começar pelo essencial: o controlo de distância, a precisão, o "touch" e a leitura de greens.
Em vez de começar pelo driver e pela distância — que são sedutores mas secundários — o iniciante constrói bases sólidas desde o primeiro dia.
4) Curva de aprendizagem mais amigável: Num campo grande, é fácil um principiante perder bolas, atrasar o jogo e sentir frustração. No Pitch and Putt o progresso é visível rapidamente. Os buracos são alcançáveis, o jogo flui, e a motivação mantém-se alta.
5) Menor taxa de desistência:
Quando o golfe deixa de ser frustrante e passa a ser divertido desde cedo, as pessoas f**am. O Pitch and Putt cria confiança e cria ligação com a modalidade.

E quando o salto para o campo tradicional acontece, o jogador chega preparado — não assustado.
Mas o Pitch and Putt não traz vantagens só para o iniciante, também para golfistas experientes esta modalidade mais curta é aconselhável.
Quem já joga golfe muitas vezes comete o erro de achar que o Pitch and Putt é “fácil demais”. Na realidade, é exatamente o contrário: é uma ferramenta brutal de aperfeiçoamento.
1) Aperfeiçoa o jogo curto de forma intensa: Cada buraco é uma oportunidade para trabalhar: o ritmo do swing nos wedges, o controlo da amplitude, a consistência no contacto e o controlo fino de distância.
É repetição de qualidade, volta após volta.
2) O Putting sempre em jogo:
Num campo tradicional podemos passar vários buracos sem putts decisivos. No Pitch and Putt, praticamente todos os buracos acabam com oportunidades reais de birdie. O putting ganha protagonismo — e melhora.

3) Treino mental:
Sem a pressão do campo grande aqui entra um ponto muito subestimado: a mentalidade. No Pitch and Putt: jogar abaixo do par torna-se alcançável mais cedo, fazer birdies torna-se habitual, aprende-se a lidar com oportunidades de score.
Tudo isto muda a forma como encaramos o campo tradicional. Fazer birdies deixa de parecer algo raro e passa a ser parte natural do jogo.
4) Treinar a recuperação após um mau shot: Como os buracos são curtos, um erro não destrói o buraco. Há sempre hipótese de recuperar. Isto treina resiliência, foco e capacidade de resposta — competências mentais cruciais no golfe.
5) Competitividade mais equilibrada: Num torneio de clube tradicional, é comum vermos os mesmos nomes a ganhar: handicaps muito baixos dominam naturalmente.
No Pitch and Putt acontece algo diferente: há mais surpresas. Jogadores com handicap até 18 podem ser extremamente competitivos. Num bom dia, qualquer jogador pode fazer um grande resultado. Isso torna a competição: mais aberta, mais imprevisível e mais divertida. E essa sensação de “qualquer um pode ganhar hoje” é poderosa para a motivação.
O Pitch and Putt não é um “atalho” — é um caminho.
Talvez o maior erro seja encarar o Pitch and Putt como uma versão reduzida do golfe. Na verdade, é o contrário: é o laboratório onde se constrói o golfe.
Para iniciantes, é a melhor porta de entrada.
Para experientes, é uma ferramenta de evolução constante.
Talvez esteja na altura de deixar de o subestimar.

Carlos Louro Guerreiro
Treinador de Golfe (http://golfelisboa.blogspot.com)

25/04/2026

Crónicas do Golfe #7: Porque outros desportos podem acelerar a aprendizagem no golfe

Existe uma ideia muito enraizada — especialmente entre pais de jovens atletas — de que, para melhorar no golfe, é preciso simplesmente jogar mais golfe. Mais bolas no driving range. Mais voltas no campo. Mais aulas técnicas.
Mas o corpo humano não aprende movimentos dessa forma.
O corpo aprende padrões de movimento, não “modalidades”. Aprende equilíbrio, ritmo, coordenação, sequência, força, mobilidade e controlo. E esses padrões podem — e devem — ser desenvolvidos fora do campo de golfe.
Na verdade, a especialização demasiado precoce é um dos maiores travões ao desenvolvimento atlético no golfe juvenil. Crianças que praticam vários desportos tendem a desenvolver-se mais depressa, com menos lesões, maior criatividade motora e melhor capacidade de adaptação.

O golfe é um desporto técnico — mas antes disso, é um desporto atlético.
E é aqui que entra o valor dos outros desportos.
O swing não nasce no taco — nasce no corpo

Um bom swing não é apenas uma posição bonita.
É uma sequência complexa que envolve:
- Transferência de peso
- Rotação eficiente
- Coordenação olho-mão
- Ritmo e tempo
- Equilíbrio dinâmico
- Mobilidade e estabilidade
- Força que nasce no chão e sobe pelo corpo
Nenhuma destas qualidades pertence exclusivamente ao golfe.
Todas podem ser treinadas de forma natural e divertida através de outras actividades.
E muitas vezes de forma mais ef**az, porque o corpo aprende melhor quando está a brincar.

1- Actividades simples que ensinam movimentos essenciais do swing

•Fazer uma pedra saltitar na água
Ensina release natural, velocidade e sensação de chicote.
É um dos movimentos mais parecidos com o swing de golfe que existe — espontâneo, fluido e sem tensão.

•Lançamento de guarda-redes
Trabalha a sequência cinética: pés → pernas → tronco → braços → mãos.
Exactamente a ordem correcta de um swing eficiente.

•Passe de rugby / andebol
Desenvolve rotação do tronco, timing e coordenação entre parte inferior e superior do corpo.

•Lançamento do disco
Uma aula completa de potência:
a força começa no chão, passa pelas pernas, roda nas ancas e termina nas mãos.
Isto é o swing de golfe em forma pura.

•Bowling
Ritmo, fluidez e controlo da aceleração.
Ajuda jovens jogadores a perceber que potência não vem de força bruta, mas de sequência.

2- Equilíbrio e transferência de peso: a base invisível do golfe
Muitos erros técnicos no golfe são, na verdade, problemas de equilíbrio.

•Patinagem e skate
Ensinam controlo do centro de massa, estabilidade e consciência corporal.
Um atleta que domina o equilíbrio aprende o swing muito mais depressa.

•Hóquei
Postura atlética, contacto com o solo, uso de um taco e coordenação em movimento.
Transferência directa para o jogo curto e para a consistência de contacto.

3- Coordenação e timing: a linguagem dos desportos de raquete

•Tênis, padel, badminton ou squash desenvolvem algo essencial no golfe:
- Leitura de trajectórias
-Timing
-Coordenação olho-mão
-Ajuste em movimento
Crianças que jogam desportos de raquete raramente têm dificuldade em aprender contacto sólido com a bola.

4- Mobilidade e força funcional
O swing exige amplitude de movimento e estabilidade simultaneamente.

•Natação
Melhora mobilidade dos ombros, rotação do tronco e resistência geral.

•Remo
Fortalece o core e ensina ligação entre braços e tronco — essencial para consistência e potência.

•Escalada
Desenvolve força de mãos, antebraços e controlo corporal total.

5- Consciência corporal, ritmo e controlo
Estas capacidades são muitas vezes ignoradas — mas são decisivas.

•Artes marciais
Equilíbrio, estabilidade, disciplina corporal e controlo do movimento.

•Dança
Ritmo, coordenação, fluidez e capacidade de sequenciar movimentos complexos.

•Yoga e Pilates
Mobilidade, estabilidade, respiração e controlo do core — pilares de longevidade no golfe.

6- O erro da especialização precoce
Quando uma criança joga apenas golfe:
-Move-se menos
-Explora menos padrões motores
-Torna-se mais rígida
-Aprende mais devagar
-Tem maior risco de lesões e saturação

Quando pratica vários desportos:
-Torna-se um atleta mais completo
-Aprende movimentos mais rápido
-Desenvolve criatividade motora
-Mantém motivação e diversão
-Chega ao golfe com mais ferramentas
Paradoxalmente, intercalar outras modalidades desportivas pode acelerar a evolução no golfe.

7- O papel dos pais
Para pais de jovens golfistas, a mensagem é simples:
Permitir que a criança experimente outros desportos não é perder tempo de treino.
É investir no desenvolvimento atlético que vai sustentar o golfe durante toda a vida.
O objectivo nas idades jovens não é formar um golfista cedo.
É formar um atleta completo primeiro.
O golfe vem depois — e cresce muito mais depressa
O golfe é coordenação, equilíbrio, sequência e ritmo.
E tudo isso pode ser treinado longe do campo.
Por isso, quando uma criança está a nadar, a patinar, a dançar, a jogar ténis ou a lançar uma bola…
Ela não está a afastar-se do golfe.
Está a construir o golfista que vai ser amanhã.

Carlos Guerreiro (Fisioterapeuta e Treinador de Golfe)

17/04/2026

Crónicas do Golfe #6 - Aprender golfe: o que facilita e o que atrapalha

Há quem diga que o golfe é simples: uma bola parada, um taco e um buraco imóvel à distância. Em teoria, nada foge. Na prática, foge tudo — principalmente a bola.
Aprender golfe é uma mistura curiosa de ciência, personalidade e circunstância. Não basta querer; é preciso ter o tipo certo de vida à volta do jogo. E, muitas vezes, aquilo que parece detalhe é o que decide tudo.
Quem vem de modalidades como ténis, hóquei, basebol, dança ou artes marciais chega ao golfe com um atalho invisível: coordenação, ritmo, equilíbrio, consciência corporal. Já sabem o que é repetir movimentos, falhar mil vezes e continuar. Aliás, há uma observação curiosa que raramente falha: um bailarino tende a aprender golfe mais depressa do que um “armário” de ginásio. Parece injusto, mas faz sentido. O swing precisa de fluidez, rotação e timing — não de força bruta. É quase como jogar com um cas**o vestido. O bailarino usa um cas**o flexível, leve, que acompanha o movimento. O culturista joga com um cas**o de cabedal apertado: poderoso, mas rígido, a travar a rotação e a liberdade do gesto. No golfe, mobilidade vence músculo.
Quem nunca praticou desporto chega com outra bagagem: expectativas. E o golfe é cruel com expectativas. A bola não se impressiona com entusiasmo. Exige técnica, paciência e humildade. Há também uma ilusão comum: a de que o golfe não exige condição física. Não exige tanta explosão, é verdade, mas pede mobilidade, equilíbrio, rotação, resistência mental e resistência física. Quem passa o dia sentado e decide aprender golfe descobre músculos que não sabia que existiam — normalmente na forma de dores no dia seguinte. Pequenas limitações físicas não impedem ninguém de jogar bem, mas tornam a aprendizagem mais lenta. Flexibilidade das ancas e tronco, estabilidade e coordenação são ouro puro para um swing consistente.
Se tivesse de escolher apenas um fator determinante, seria a persistência. O golfe é um jogo de frustração atrasada. Falha-se muito antes de se acertar. E quando finalmente se acerta… volta-se a falhar. Quem precisa de recompensa rápida sofre muito. Há dois perfis que desistem cedo: os perfeccionistas impacientes e os entusiastas de curto prazo. Quem sobrevive é o persistente curioso, aquele que acha graça ao processo e aceita que melhorar milímetros pode demorar meses. No golfe, persistência vence talento quase sempre.
Há ainda um fator subestimado: ter um campo perto de casa é uma vantagem brutal. O golfe não se aprende em sessões intensas de fim-de-semana; aprende-se na repetição casual, na meia hora no driving range, nos nove buracos ao fim da tarde, nos putts treinados sem pressa. Se a ida ao campo exige logística, tempo e planeamento, a frequência cai — e quando a frequência cai, a evolução evapora. O golfe recompensa a proximidade.
Muitos tentam o caminho do autodidata. Ler livros ajuda. Ver vídeos ajuda. Observar jogadores ajuda. Mas há um limite duro: não conseguimos ver os nossos próprios erros. No golfe, o que sentimos raramente corresponde ao que fazemos. O swing que parece perfeito na nossa cabeça pode ser um caos biomecânico. Aulas não substituem a prática, mas poupam meses de frustração e anos de tentativa-erro. Um bom professor não ensina apenas técnica, ele dá o caminho certo da aprendizagem e da motivação — e motivação é combustível raro no golfe.
Depois há o ingrediente invisível: tempo. Não apenas horas, mas horas regulares. O cérebro precisa de repetir movimentos até deixarem de ser decisões conscientes. Treinar uma vez por mês é como tentar aprender uma língua viajando um fim-de-semana por trimestre: diverte, mas não transforma.
O maior obstáculo acaba por ser quase sempre o mesmo: expectativas irreais. Muitos começam a jogar imaginando progresso linear — hoje falho, amanhã melhoro, depois domino. O golfe não funciona assim. A evolução é irregular, cheia de regressões e pequenas vitórias invisíveis. Há semanas em que tudo funciona, seguidas de semanas em que parece que nunca se jogou. Quem aceita esta montanha-russa continua; quem não aceita, sofre.
No fundo, aprender golfe é menos sobre bater bolas e mais sobre criar condições: um corpo minimamente preparado, um campo acessível, orientação técnica, tempo regular e curiosidade persistente. Mas, acima de tudo, exige uma qualidade rara: gostar do caminho tanto quanto do resultado. Porque no golfe, o resultado demora. O caminho é imediato. E é aí que se decide quem f**a.

Carlos Guerreiro - Fisioterapeuta e Treinador de Golfe

28/03/2026

Crónicas do Golfe #5: A primeira volta ao Campo

A primeira vez num campo de golfe nunca se esquece.
É um misto de entusiasmo, nervosismo e… uma ligeira sensação de “que estou aqui a fazer?”.
Depois de algumas aulas no driving range, onde tudo parece relativamente controlado, o campo de golfe apresenta-se como um mundo completamente diferente. De repente, já não há tapetes direitos, bolas perfeitas nem tempo ilimitado. Há relva natural, inclinações, obstáculos, pessoas a observar… e regras que parecem surgir de todos os lados.
Para um iniciante, o maior desafio não é técnico — é mental.
É lidar com a pressão de jogar mais devagar do que os outros, de falhar pancadas simples, de perder bolas, de não saber exatamente onde se deve estar ou o que se deve fazer a seguir.
Cada buraco parece um teste novo.
A saída no tee causa tensão, o ferro que no treino saía direito agora insiste em ir para o lado errado, e o green… bem, o green parece sempre muito maior na televisão do que na vida real.
Mas há algo importante que poucos dizem: todos os golfistas passaram por isto.
A primeira volta no campo é confusa para todos. É normal sentir-se deslocado, cometer erros de etiqueta, escolher mal o taco ou precisar de várias pancadas para chegar ao green.
O campo de golfe não perdoa, mas também ensina. Ensina humildade, paciência e respeito pelo jogo. Mostra-nos que o golfe não é sobre perfeição, mas sobre adaptação. Cada pancada é uma nova oportunidade de aprender — não de provar nada a ninguém.
Para quem está a começar, o segredo é simples:
jogar com expectativas baixas, observar mais do que falar, respeitar o ritmo do jogo e, acima de tudo, aproveitar a experiência.
Porque aquele nervosismo da primeira vez, aquelas pancadas falhadas e até aquela bola perdida… fazem parte da história de qualquer golfista.
E um dia, mais tarde, quando já estiveres confortável no campo, vais olhar para trás e sorrir.
Porque foi ali, nessa primeira volta difícil, que o golfe começou realmente para ti.
E depois dessa experiência o truque é simples:
intercalar o driving range com o campo.
Um para treinar, o outro para… sofrer com dignidade.
Mas para minimizar o sofrimento, há aqui algumas estratégias quase de sobrevivência:
Primeiro: escolhe bem os parceiros.
Procura parceiros que sejam pacientes, que te ensinem a estar no campo e que sejam uma boa companhia, para que a volta seja um momento bem passado mesmo quando o resultado foi excelente. Haverá sempre os dias seguintes para voltar a tentar fazer melhor.
Evita jogar com alguém muito exigente e que te tente ensinar a técnica a todo o custo, deixa isso para o fazer no driving range com o teu treinador. No campo não penses demasiado no swing, apenas concentra-te.
Segundo: procura horários calmos.
Nada de ir sábado às 10 da manhã, cheio de confiança e zero experiência.
Vai quando o campo está vazio. Assim, quando fizeres 9 pancadas num par 3… ninguém vê. Ou pelo menos… menos gente.
Terceiro: campos fáceis.
Planos, tranquilos, simpáticos.
Não precisas de um campo que te humilhe. Isso já o jogo faz naturalmente.
Mas no meio de tudo isto, há uma skill que ninguém treina no driving range:
saber estar no campo.
Onde f**ar, quando jogar, quando desistir daquela bola impossível…
e, muito importante, manter o ritmo de jogo.
Porque no golfe há duas coisas imperdoáveis:
jogar mal… e jogar devagar.
Jogar mal, toda a gente perdoa.
Jogar devagar… nem sempre sais vivo.
E com o tempo, vais melhorando.
Começas a perder menos bolas… ou pelo menos a aceitá-lo melhor.
Começas a perceber o jogo, o ritmo, o ambiente.
E um dia dás por ti a olhar para um iniciante…
e a pensar: “coitado… nem imagina.”
Mas a verdade é esta:
todos começámos exatamente assim.
Confusos, nervosos… e com uma fé absurda de que aquela próxima pancada é que vai ser perfeita.
E sabes que mais?
Às vezes… até é.
Http://golfelisboa.blogspot.com

Crónicas do Golfe #4: Material para iniciar 19/03/2026

Crónicas do Golfe — Episódio 4: O Material para Começar
Há uma fase muito curiosa na vida de quem começa a jogar golfe.
É aquela em que ainda não sabe bem fazer um swing… mas já passou duas horas na internet a ver drivers novos que prometem mais 30 metros.
Calma. Respire.
A boa notícia é esta: nas primeiras aulas não precisa comprar praticamente nada.
A maioria das escolas e treinadores têm tacos para emprestar.
Aliás, comprar um set completo no primeiro dia é um gesto corajoso… mas estatisticamente perigoso.
Não fosse o golfe um desporto com uma taxa de desistência considerável, e muitas arrecadações por esse país fora já não teriam s**os de golfe novinhos a apanhar pó.
Mas há um pequeno passo que quase todos acabam por dar cedo: a luva.
Sim, no golfe usa-se apenas uma luva.
E sempre na mão não dominante.
Ou seja:
destros → luva na mão esquerda
canhotos → luva na mão direita
A luva deve f**ar justa, quase como uma segunda pele, mas sem cortar a circulação.
E felizmente é o investimento mais simpático do golfe: cerca de 10 a 15 euros.
Até aqui tudo controlado.
Mas depois de algumas aulas acontece algo inevitável:
começa a sentir o bichinho do golfe e é nesse momento que surge a grande decisão filosóf**a da modalidade:
Meio set… ou set completo?
Muitos começam por meio set.
Mas se o entusiasmo for sério, há uma forte probabilidade de mais tarde querer completar o resto.
Portanto, se o vício já começou… talvez valha a pena ir logo para o essencial.
Um primeiro set deve incluir:
Driver
Madeira ou híbrido
Conjunto de ferros (normalmente do ferro 5 ao pitching wedge)
Sand wedge
Putter
E claro, os acessórios obrigatórios do golfista civilizado:
s**o de golfe
toalha
bolas
tees
reparador de pitch-mark
marcador de bola
Porque no golfe até levantar uma bola do green tem etiqueta própria.
Agora vem a grande pergunta:
Material novo ou usado?
A minha opinião é simples: usado de boa qualidade.
E por uma razão lógica: o seu golfe vai evoluir.
E quando evoluir… vai querer trocar de tacos.
Por isso gastar uma pequena fortuna no início raramente compensa.
Também não vale a pena fazer fitting completo nesta fase.
Primeiro convém bater na bola com alguma consistência… depois logo se afina o detalhe.
A única exceção é se for muito alto ou muito baixo — nesse caso o treinador facilmente percebe se precisa de tacos com comprimento diferente.
Para simplif**ar a escolha:
1- Ferros:
Opte por marcas conhecidas como Callaway, Ping, Titleist, Taylormade, Mizuno, Srixon, Cobra, Cleveland ou Wilson Staff.
Escolha modelos cavity back, que perdoam mais erros.
Evite blades no início.
Blades são tacos bonitos e bons… mas para jogadores profissionais ou de um dígito de handicap.
Se for um jogador sénior com mais de 50 anos aconselho varetas de grafite regular, se for jovem varetas de aço regular.
Um bom conjunto de ferros usados pode custar cerca de 150 a 200 euros.
2- Driver:
Na escolha de driver procure ter um loft de mais de 10⁰ com varetas flexíveis (regular) e leves com o peso próximo das 50 gramas para um jogador sénior e 65 gramas num jogador jovem.
Drivers usados de boa qualidade rondam 80 a 100 euros.
3- Sand Wedge:
Entre 54º e 58º (o clássico é o 56º).
Um bom wedge usado pode custar cerca de 40 euros.
4- Putter:
Aqui entra a parte emocional do golfe.
Existem dois grandes estilos:
Blade (clássico)
Mallet (mais moderno)
O clássico Ping Anser, inventado em 1966, continua até hoje a ganhar torneios profissionais.
Não é má credencial.
Um bom putter usado pode custar cerca de 50 euros.
Mas atenção a um detalhe muito ignorado:
o comprimento do putter.
Cerca de 90% dos amadores joga com um putter demasiado comprido.
No circuito profissional a média anda nas 33 polegadas.
Nas lojas vendem-se sobretudo de 35 ou 36.
Curioso, não é?
5- S**o de golfe:
Para começar, o ideal é um s**o leve com pernas (tripé).
Marcas boas incluem Ping, Sun Mountain, Titleist, Callaway, Ogio ou Taylormade — mas até a Inesis tem boas opções.
Um s**o usado em bom estado pode custar cerca de 70 euros.
6- Sapatos:
Quando começar a jogar no campo, os sapatos passam a ser indispensáveis.
Se quiser começar sem gastar muito, os da Inesis rondam os 50 euros.
Se quiser mais estilo, as referências clássicas são Ecco, FootJoy, Adidas ou Lambda.
7- Bolas:
No início… bolas usadas chegam perfeitamente.
Aliás, jogar com bolas caras como Titleist Pro V1 quando ainda estamos a perder três por buraco é quase um gesto de filantropia para a natureza.
Bolas usadas custam cerca de 50 cêntimos.
Mas atenção: nunca usar bolas do driving range no campo.
É proibido… e os marcadores reparam, é vergonhoso!
Onde comprar material usado?
Sites como OLX podem ter boas oportunidades.
Mas convém fazer algumas perguntas simples:
porque está a vender?
onde jogava?
qual era o handicap?
Se quiser ir mais longe pode até pedir o número de federado e confirmar no site da federação.
Em cinco minutos percebe se está a falar com um golfista… ou com alguém que “achou” material interessante.
Também muitas lojas de golfe vendem material usado já verif**ado.
No final das contas, é perfeitamente possível montar um set completo de boa qualidade por cerca de 300 euros.
Comparado com um set novo topo de gama — que facilmente ultrapassa 2000 euros — é quase uma lição de gestão financeira.
E a verdade é esta:
No golfe moderno houve grandes evoluções em drivers e bolas.
Mas muitos ferros feitos depois dos anos 2000 continuam excelentes.
E no caso dos putters, muitos dos designs usados hoje nasceram há mais de 50 anos.
Portanto não se preocupe demasiado com o material.
Porque há uma verdade universal no golfe:
os tacos raramente são o problema.
Como diz o outro, não sabem dançar e a culpa é dos sapatos... Ou da sala que está torta!
No golfe as desculpas podem até ser muitas, mas pelo material depois de ler isto já não tem desculpa.
Boas tacadas!

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Photos from Carlos Guerreiro - Treinador de Golfe's post 16/03/2026

Crónicas do Golfe #3 - Curso de iniciação de Golfe

Após a primeira experiência de golfe surge quase sempre um pensamento… perigoso.
“Eu acho que já posso ir para o campo.”
É um pensamento clássico.
Normalmente aparece depois de três boas pancadas seguidas no driving range.
Ou depois de um amigo muito otimista dizer:
“Isso já está ótimo… vamos jogar!”
E é precisamente aqui que entra uma das melhores invenções do golfe:
o curso de iniciação.
Porque no golfe existe uma pequena diferença entre acertar na bola… e saber jogar golfe.
É nestes cursos que se descobre que afinal existe bastante ciência por trás daquele movimento aparentemente simples.
Primeira surpresa: a postura.
De repente percebemos que jogar golfe não é simplesmente dobrar as costas e bater na bola.
Há ângulos, equilíbrio, peso distribuído…
Quase parece uma aula de yoga.
Só que com tacos.
Depois vem o stance — onde colocar os pés.
À primeira vista parece algo simples.
Mas é o tipo de detalhe que consegue transformar uma tacada elegante numa bola que decide ir visitar… o estacionamento.
Ou a esplanada do club house.
Segue-se o grip.
Segurar num taco parece trivial…
até descobrirmos que existe uma forma correta de o fazer…
e várias formas criativas de fazer tudo completamente errado.
E quando já estamos a pensar que o golfe se resume a dar pancadas na bola, descobrimos que afinal existem vários tipos de tacadas.
O putting — quando a bola já está no green e rola tranquilamente em direção ao buraco… ou passa um metro ao lado.
O chipping — aquela pancadinha delicada perto do green, que voa pouco e rola depois.
O pitching — uma pancada de aproximação com voo mais alto, que aterra no green e trava rapidamente.
E claro, o famoso full swing — a tacada completa…
que às vezes é tudo menos completa.
Ou seja, aquilo que parecia um gesto simples transforma-se numa verdadeira coleção de movimentos, cada um com a sua técnica, o seu timing…
e as suas surpresas.
Para ajudar quem começa, existe até um programa muito bem pensado da Federação Portuguesa de Golfe: as famosas “9 semanas e meia”.
Sim, o nome lembra imediatamente um certo filme clássico…
mas neste caso o romance é com o golfe.
Durante estes cursos — em grupo ou individualmente — os novos jogadores vão descobrindo, passo a passo:
como bater melhor na bola
como controlar a direção
como jogar perto do buraco
e, talvez ainda mais importante…
como sobreviver psicologicamente a uma má pancada.
Porque um curso de iniciação não serve apenas para ensinar técnica.
Serve para algo ainda mais importante:
evitar sofrimento desnecessário no campo.
Sem essas bases, ir diretamente para um campo de golfe pode ser uma experiência… educativa.
Para o próprio…
e um filme de terror para todos os que estão a jogar atrás.
No fundo, fazer um curso de iniciação é como aprender a conduzir antes de entrar numa autoestrada.
E depois de terminado o curso, há uma coisa que é quase garantida:
a bola continua a fazer coisas estranhas…
Mas pelo menos já sabemos porquê.
E no golfe…
isso já é metade do caminho.

14/03/2026

Crónicas do Golfe - Episódio 2: os que desistem e os que persistem

Depois da primeira aula de golfe acontece uma coisa curiosa: as pessoas dividem-se em dois grupos muito distintos.

Os que dizem:
“Foi giro, temos de repetir um dia destes.”

E os que dizem:
“Quando é a próxima aula?”

É uma diferença subtil… mas decisiva.

Porque experimentar golfe é fácil. Continuar é outra história.

O primeiro obstáculo costuma ser o mais visível: o equipamento. De repente descobre-se que não basta “um taco e uma bola”. Há drivers, ferros, wedges, putters, s**os, luvas, tees… e aquela sensação de que, se não tivermos pelo menos metade da loja de golfe connosco, estamos mal preparados.

Depois vêm as aulas. Quem começa percebe rapidamente que melhorar sozinho é possível… mas difícil e demorado. As aulas ajudam, mas também obrigam a compromisso — de tempo e de investimento.

E depois aparece uma palavra que muitos principiantes nunca tinham ouvido: handicap.
Para quem está de fora, parece quase um código secreto necessário para entrar em certos campos.

Mas curiosamente, estes não são os obstáculos mais difíceis.

Os verdadeiros desafios são outros.

Falta de tempo.
Campos longe de casa.
Agendas que não encaixam.
A ideia de que “só vale a pena se alguém for jogar comigo”.

E aqui entra um dos grandes equívocos sobre o golfe: muita gente acha que precisa sempre de companhia.

Mas o golfe é provavelmente um dos desportos mais independentes que existem. Pode jogar-se sozinho, ao ritmo de cada um, sem depender de equipas, horários complicados ou adversários disponíveis.

O problema é que jogar sozinho exige uma coisa rara: iniciativa.

E depois há o fator mais silencioso de todos: a frustração.

Porque no golfe ninguém melhora de forma linear. Um dia tudo corre bem. No seguinte parece que nunca agarramos num taco de golfe. É um desporto que testa a paciência, a persistência e a capacidade de rir de nós próprios.

Algumas pessoas não gostam dessa sensação.

Outras… f**am fascinadas por ela.

São essas que continuam. As que aceitam que o golfe não é sobre perfeição, mas sobre progresso. As que conseguem sair do campo depois de 100 pancadas e ainda assim lembrar-se daquele único ferro perfeito que valeu a pena.

E sem dar por isso, essas pessoas começam a organizar o tempo de forma diferente. Arranjam maneira de passar pelo campo “só meia horinha”. Começam a reconhecer os mesmos rostos no clube. E um dia percebem que o golfe já não é apenas uma experiência.

Passou a ser um hábito.

Ou, como muitos golfistas gostam de dizer…
um pequeno vício saudável.

E assim, discretamente, nasce mais um jogador de golfe.

Carlos Louro Guerreiro - Treinador de Golfe

13/03/2026

Crónicas do Golfe - Episódio 1: A primeira aula de Golfe

Toda a gente que vai à primeira aula de golfe acha que já percebe qualquer coisa do assunto.

Afinal, já viu golfe na televisão. Já viu aquele movimento elegante, o jogador a rodar, a bola a sair perfeita e a desaparecer no horizonte. “Isto parece tranquilo”, pensam. “É só dar uma pancada na bola.”

Não é.

O primeiro sinal de que a expectativa não bate certo com a realidade é a roupa. Há sempre alguém que aparece como se fosse jogar o Masters: polo impecável, boné novo, luva branca. Parece que vai entrar diretamente para o circuito profissional.

Depois há o outro extremo: o que aparece de ténis de corrida, t-shirt de ginásio e a ideia firme de que golfe “não é bem desporto”. Cinco swings depois já está a suar e a perceber que afinal mexe com músculos que nem sabia que existiam.

E então chega o momento mágico: a primeira tentativa.

A pessoa aproxima-se da bola com confiança. Alinha o corpo. Olha para a bandeira como quem já imagina a trajetória perfeita. Faz um swing cheio de convicção…

…e falha a bola.

Ou acerta no chão primeiro. Ou a bola anda dois metros e meio. Ou vai tanto para o lado que desaparece das laterais do Driving Range.

É aqui que começa a verdadeira iniciação ao golfe: a descoberta de que a bola está parada… e mesmo assim é difícil acertar-lhe bem.

Mas também é aqui que nasce o vício.

Porque, de repente, no meio de várias tentativas estranhas, acontece um momento raro: um contacto limpo, a bola sobe bonita, voa direita e durante dois segundos a pessoa sente-se um génio do desporto.

E pensa:

“Ok… afinal eu tenho jeito para isto.”

Mal sabe ela que o golfe tem uma habilidade extraordinária: dar-nos exatamente um bom golpe suficiente para voltarmos no dia seguinte.

E assim começam muitas histórias no golfe — não com perfeição, mas com uma mistura maravilhosa de expectativa, humildade e aquela primeira bola que finalmente voa como imaginámos.

No fundo, a primeira aula de golfe ensina duas coisas muito depressa:

O golfe é muito mais difícil do que parece.

E muito mais divertido também.

Carlos Louro Guerreiro

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