18/01/2022
E do nada há um laboratório de arqueologia a 10 minutos de minha casa... E o que vivi hoje remeteu-me para uma ideia que adoro: a de que o mundo é dos nerds. Nao porque são os que vencem no dinheiro, no amor ou na malandragem, necessariamente. Mas porque partilham a vitória no parâmetro que para mim mais importa: falam sobre a sua vida com amor. Para eles, uma pedra no chão diz tanta coisa... Como caçavam as pessoas há 30 mil anos, como eram as montanhas e os rios, o que comíamos e o que nos comia. Há tanto brilho nos olhos das investigadoras que conheci quando falam sobre os crânios dos hipopótamos (o grandão que encanta toda a gente) como quando falam do fémur dos ratinhos que aos leigos não interessa. Todos lhes dizem coisas sobre o passado e todas as apaixonam. Para mim, são os que vencem nessa forma de felicidade que tanto importa - que nos importe o que fazemos.
🇵🇹
03/01/2022
4 amigos numa casa longe, por uns dias de sol. E isto a acontecer, sem ninguém por perto que não fizesse sentido. O olhava pelo canal. A fotografava da falésia. Não preciso de fogos de artifício... Só disto. E foi isto e mais nada que aconteceu antes da meia noite. Que bom.
26/12/2021
Cada vez que fico ansioso com alguma coisa da vida, penso em quão insignificante a minha existência é, no final. Acalma saber que, pondo em perspectiva, somos um macaco que andará por aqui um tempo bastante curto até desaparecer com todos os seus pensamentos, valores, ideias grandiosas e, claro, com todos os problemas parvos, para sempre. Mas, nesta viagem a Lanzarote, ganhei um novo significado para esta minha insignificância. Afinal de contas, nesta ilha, eu podia virar areia do deserto, num sentido mais poético, ou fertilizante de batatas, se quisermos manter o discurso leve. Isto porque muitas destas areias vermelhas são os restos de seres vivos (algas e crustáceos) que morreram na costa e voarem pelas ilhas para trazer à terra este pedaço de Marte no Atlântico. Da próxima vez que ficar stressado, pode ser que me lembre que, pelo menos nas Canárias, a memória dos vivos é preservada em batata frita e leche leche, pela tarde. As fotografias (do , da e minhas) contam, da esquerda para a direita: uma pedreira que faz lembrar o oriente médio. A onda da nossa casa, com a Graciosa ao fundo. Uma duna de crustáceos. Mina com gruta. Plantação das batatas com antigo vulcão atrás. A mesma onda, de lado. O beachbreak que nunca tem ninguém. Não sei o que estava a fotografar, mas devia ser vermelho. A minha melhor fotografia de surf na viagem😅. A a deixar tudo mais bonito.
22/12/2021
Se tivesse que resumir este lugar?
Talvez esta fotografia do não estivesse tão longe do absolutamente necessário para o fazer. E o "absolutamente necessário" talvez seja, também, o resumo perfeito de um lugar que nos acolheu (a mim, à e ao Henrique) de forma tão simples e tão bonita. Amanhã ou assim solto mais palavras e imagens. Mas, por hoje, esta chega.
07/12/2021
De vez em quando, a floresta aparece na minha cabeça, sem avisar. É um lugar que dá saudades. Mas, para mim, a razão dessas saudades deixaram de ser as razões visitosas de antes. Claro que, quando falo com alguém que não conhece a floresta tão der perto, a conversa dança mais sobre bichos viscosas que nos podem matar, ou, pelo menos, dos que fingem que podem (como esta falsa coral). Mas quando a selva me aparece, hoje, ela chega principalmente para me lembrar de como a vida pode ser vividada de uma forma tão diferente da que levamos aqui mas, no final, parecida, também. Explico. Na floresta, a vida é diferente porque não há tempo a não ser o necessário para chegarmos ao que realmente precisamos. E por isso mesmo percebemos que, afinal, precisamos de muito pouco. Só nos lembramos do relógio quando o sol ou a lua, a fome ou a sede vêm ter connosco. O resto do tempo não se mede porque não há nenhum outro lugar onde estar senão ali. Mas não me mal-interpretem: não é um exercício de disciplina nem uma privação propositada dos sentidos. É que não há rede social ou lugar no mundo que exercite mais a nossa vontade de ver, cheirar e sentir tudo quanto pudermos como a floresta. E é nisso que eu acho que a floresta é parecida como a vida "aqui". Não fazemos senão mais do que tentar bombardear os sentidos com tudo o que pudermos. Fomos feitos para isso - manter a cabeça ocupada. Como se não soubessemos sair da floresta e dos mundos em que o scroll era feito a pé e descalços, mas era feito na mesma. E é talvez por isso que a floresta para mim suscita essa saudade tão estranha de precisar de voltar a um lugar que é tão estranho mas, ao mesmo tempo tão familiar. Como se me estivesse escrito nos genes. .way
29/11/2021
Vou, talvez, parecer extremamente frio, para alguns. Mas isto é como eu sinto a coisa: de vez em quando, morre alguém conhecido. Ou, pior, morre muita gente desconhecida, fruto de um desastre distante e que, pelo número ou pelo contexto, faz com que essas vidas sejam largamente comentadas no nosso mundo, de longe. Claro está que não gosto da morte e, especialmente, do sofrimento de ninguém mas, se tiver que ser honesto comigo e com o mundo, as mortes longínquas até me podem importar muito, mas tocam-me pouco. E não sou ninguém para julgar os sentimentos dos outros mas dou por mim a pensar no porquê de alguém fazer um enorme alvoroço emocional a respeito de alguém que não marcou a sua vida, quando há tanto sofrimento tão perto. Uma das minhas exceções para o choro pelo desconhecido é precisamente essa: a empatia que sinto a respeito de alguém que nunca conheci, mas que me impactou a mim. Não o mundo, mas a mim. Vou chorar o Caetano, o David Attenborough e uns quantos outros que não conheço. A outra acontece quando consigo colocar-me nos pés dos outros. Normelmente, nos pés dos que não têm nome e morrem mesmo assim. Perco-me na tristeza e vem do nada. Mas, infelizmente para o mundo, acontece pouco. Depois, há aqueles como o Dapin. Não era um desconhecido mas, certamente, não era o meu melhor amigo. Era da praia. E, no entanto, era como esta figura que fazia parte da minha vida e da de todos os surfistas portugueses. Especialmente dos goofies de Carcavelos. Mas não era pelo surf. Pelo menos não para mim. Era pela simpatia na água e pela pica que ver aquele "velho" a destruir uma onda de vinte centímetros em Carcavelos como se tivesse eternamente 14 anos inspirava. Tinha-lhe carinho, não sei porquê. E também não sei porque fazemos isto de prezar e agradecer aos mortos. Mas sinto que o devemos fazer, quando realmente nos importa. Que o devia fazer. F**a aqui um adeus.
Fotografia do
16/11/2021
Estes são os Kew Gardens. Quando se visita Londres, são uma atração relativamente menos badalada do que os museus maravilhosos que pingam pela cidade ou do que as ruas mais centrais. Até entre os jardins, é dos menos falados. A razão eu só posso chutar... Talvez seja um pouquinho longe ou talvez não esteja tão publicitado. Mas, seguramente, não é menos importante do que nada do que se possa visitar nas redondezas do Buckingham Palace. O lugar é lindo. Tem plantas de todos os continentes do mundo e um jardim que não acaba, disposto da forma mais imponente possível. Mas, a meu ver, o interesse do lugar só pode ser realmente visível se colocarmos os óculos da história. Eu acho particularmente interessante como, no meio de dominar o mundo, a Inglaterra se propôs também a dominar o conhecimento, na altura em que o império não via a noite. Imaginem o século XIX, cheio de disputas sangrentas por toda a parte, conferências sobre como partir continentes aos bocadinhos, fomes generalizadas em cidades que hoje estão no pelotão da frente do desenvolvimento e, no meio de tudo isto, é construído um jardim botânico onde se poderia aprender e estudar sem ter que empreender missões para o outro lado do mundo. Mas empreendiam-se, e patrocinadas pelo estado. E, se muito desse conhecimento serviu só como uma desculpa para fazer crescer ainda mais o poder do Reino Unido, outro tanto, parece-me, foi promovido pelo valor do conhecimento em si. Não como um meio para, mas um fim em si mesmo. Não é que o mundo de hoje não seja, também, assim, de muitas maneiras. Mas, por algum motivo, tendemos a olhar para tudo de forma algo cínica. Talvez tenhamos razão para o fazer mas, neste jardim botânico, só consegui ver o bom do mundo e isso deixou-me feliz.
28/10/2021
Há histórias a que só chego por causa do surf. Viagens que começam com o mar no terminal mas que, pelo caminho, passam por vulcões, bichos maravilhosos, culturas diferentes, as construções das gentes e a gente em si. Mas, também, há histórias de surf. E, sendo que as ondas são e serão sempre a minha origem, estas histórias tocam-me tanto como tocavam quando comecei a deslizar no mar. Às vezes, no entanto, são histórias mais difíceis. Não sei até que ponto a descrição do deslizar numa prancha nova chegará a toda a gente porque não há palavras para descrever o que se sente realmente e que, por isso, não traduzem a experiência para quem nunca a sentiu. Mas, para quem já sentiu, saberá exatamente do que falo quando digo que das aventuras mais simples e mais bonitas que posso viver é trazer uma prancha "qualquer" da e ver como ela dança debaixo dos meus pés. É assim que descubro o que funciona para mim, muito mais do que quando faço uma prancha à medida. Esta foi branca para dentro d'água. Para teste. Mas a apanhou-me e, porque o foguete estava branquinho, vou aproveitar a oportunidade para agradecer a quem me acompanha e permite viver tantas histórias como as que conto. A estão cá há muito. Obrigado.
22/10/2021
Passei esta surfada inteira a fazer duas coisas. A tentar posar para o e para a que estavam na areia, e a olhar para as rochas que posavam para mim. É como olhar para uma máquina do tempo. Em cada ranhura, se virmos bem, podemos sentir o bater das ondas que rolaram há milhares... milhões de anos, talvez. Em cada rachadura torta, quem sabe, o grunhir de um animal que já não há ou o tremer de um sismo. Quem disse que aéreos baixinhos não podiam ser históricos? Obrigado surf, por me dares tantos óculos para olhar para as coisas.
15/10/2021
Estou há 3 meses quase sem "folgas", na gravação de uma série que, apesar do tanto que tenta retratar, é um conteúdo "surfístico". Esta semana, tive "férias". O que é que fui fazer? Não é uma história longa mas acho que diz muito. As fotografias lindas da atestam ao meu aproveitamento dos tempos livres :)